A HISTÓRIA E O DESENVOLVIMENTO
DO SAXOFONE
POR GIANCARLO MEDEIROS
PARA O GRUPO – SAX-CCB ERUDITO - SACRO

Queridos irmãos, A PAZ DE DEUS!
Como houve certas divergências em alguns pontos, gostaria de partir dos aspectos históricos do saxofone, sei que o irmão José de Carvalho já fez isso, mas irei reforçar, e acrescentar alguma coisa.
Tentarei traçar uma linha de raciocínio, partindo desde o inventor, até chegar nas orquestras da CCB.
PEQUENO HISTÓRICO DO INVENTOR, E ALGUMAS CURIOSIDADES:
A nossa história começa em Dinant, uma pequena cidade do interior da Bélgica, no início do século XIX. Foi nessa cidade industrial e próspera que nasce Antoine-Joseph Sax, primogênito entre os 11 filhos de Charles-Joseph Sax, fabricante de instrumentos musicais, em 6 de novembro de 1814.
Os acontecimentos ocorridos desde a sua infância, já denunciavam que Sax não era uma criança que compartilhava de interesses comuns às crianças de sua idade, pelo ambiente familiar em que vivia e por uma série de fatalidades:
“Sabendo apenas se colocar de pé, cai três andares e bate gravemente a cabeça contra uma pedra: pensavam que tinha morrido. Aos 3 anos, bebe um copo d’água com ácido. Engole um alfinete. Mais tarde, é gravemente ferido por uma explosão de pólvora. Ele cai numa fornalha de fundição e se queima de um lado. Por três vezes ele quase morreu envenenado e asfixiado por objetos envernizados. Outro dia ele levou uma pedrada na cabeça. Cai num rio e quase morre afogado. Sua mãe disse que “ele está condenado à desgraça e não sobreviverá”
Além dos incidentes “trágicos”, a infância de Sax foi marcada também por acontecimentos importantes. Foi nesse período que teve os primeiros contatos com o universo dos instrumentos musicais, sobretudo, dos instrumentos de sopro, que eram a especialidade de seu pai. O interesse pelo ofício paterno e o intenso contato com os mais variados tipos de instrumentos musicais foram alguns dos fatores decisivos nas escolhas que Sax viria a fazer no decorrer de sua vida. O seu empenho e curiosidade eram tão grandes que com apenas seis anos de idade já conseguia perfurar com perfeição uma clarineta.
Concomitantemente com as funções desenvolvidas como aprendiz de fabricante de instrumentos musicais na oficina de seu pai, Sax teve a sua primeira experiência musical prática ao estudar flauta no conservatório de Bruxelas e, posteriormente, ao estudar clarineta com Bender, o maestro de uma famosa banda militar belga. Segundo ainda Florêncio, “foi tocando estes instrumentos que ele se deu conta de suas imperfeições as quais quis amenizar”. Trabalho esse que não tardou a começar, pois aos quinze anos enviou à exposição industrial de Bruxelas duas flautas e uma clarineta feita de marfim e, aos vinte anos, realizou mudanças significativas na estrutura do clarinete baixo. Com Sax, “a clarinete-baixo (sic.) tornou-se uma parte padrão do grupo das madeiras”.
Sax demonstra que o timbre do instrumento não é determinado pela natureza do material empregado, mas sim pelas proporções dadas à coluna de ar que se forma em seu interior. Muito versado nessa lei conhecida como “leis das proporções”, Adolphe aperfeiçoou, engrandeceu e completou as famílias de quase todos os instrumentos de sopro, metais ou madeiras.
Sax foi professor de Conservatório de Paris por 13 anos, tendo ele mesmo formado 130 saxofonistas para as bandas militares.
Atacado sem trégua, vilipendiado e plagiado, mas teimoso e persistente, falido por três vezes, Sax morreu em 7 de fevereiro de 1894, exausto, na ruína total, e o saxofone, seu invento mais original, a ponto de ser entregue ao esquecimento.
A SUA CRIAÇÃO:
É comum uma obra inventada herdar o nome do seu criador e com o saxofone não foi diferente. Na tradução literal para o português, Saxophon quer dizer “voz do sax”, numa concepção que remete à alusão que Sax fazia ao seu invento. Imaginara um instrumento que, pelas características de seu som, pudesse se aproximar dos instrumentos de cordas, mas que possuísse mais força e intensidade que estes últimos. O processo de fabricação do saxofone aconteceu na década de 1840, período em que Sax, residente em Bruxelas, adaptou uma palheta de clarineta ao bocal de um oficleide, evidenciando já o processo revelador de um instrumento híbrido. Em 1842, Sax se muda para Paris, onde instala uma modesta oficina, que se transforma rapidamente em uma verdadeira fábrica de onde saíram 200 mil instrumentos entre 1843 e 1860.
Inicialmente Sax concebeu duas famílias de saxofones: a primeira nas tonalidades de Dó e Fá, com instrumentos destinados a tocar na orquestra; a segunda, em Si bemol e Mi bemol, com instrumentos destinados a tocar nas bandas militares. Dos instrumentos propostos por Sax, o primeiro a ser idealizado foi o saxofone baixo, construído na tonalidade de Fá, que foi exposto pela primeira vez em 1844, na Exibição Industrial de Paris. Este período marcou também a primeira apresentação desse instrumento em concerto, ocasião em que Sax executou com um saxofone baixo em dó, na sala Herz, uma transcrição do Hino Sagrado de Hector Berlioz. Nessa mesma década o compositor George Kastner (1809-1872) inseriu o saxofone em uma de suas óperas e, em consequência desse fato, em dezembro de 1845 o saxofone fez a sua estreia na orquestra. Segundo Kastner, “o primeiro saxofone construído pertencia ao registro do baixo, eu fui o primeiro a utilizá-lo na escrita da minha ópera The Last King Of Juda (O último rei de Judá) tocada no conservatório de Paris em 1° de dezembro de 1844” (apud KOCHNITZKY 1949, p.21).
Delineado o período em que foi inventado e as primeiras interações com a dimensão cultural, sobretudo, erudita, resta apresentar o instrumento saxofone em suas peculiaridades. O saxofone é um instrumento de sopro com peculiaridades que o caracterizam realmente como um instrumento híbrido. Isso porque sua estrutura física é elaborada tendo o metal como matéria prima. No entanto, o som é projetado através de uma boquilha, ao invés de um bocal, como é usual nos instrumentos de metal. Kochnitzky (1949) observa que:
“Este instrumento [...] é baseado em um princípio, nunca antes aplicado na construção de qualquer aparato sonoro que o mundo moderno herdou dos séculos anteriores ou dos povos exóticos: uma vibração de uma coluna de ar dentro de um tubo cônico, através de uma palheta removível que é similar à do clarinete.”
Um dos grandes incentivadores e responsáveis pela difusão do saxofone no meio musical (bandas militares e orquestras) foi Hector Berlioz. Esse compositor, mediante a crítica constante dos oponentes de Sax, tecia incansáveis elogios ao instrumento através de seus artigos. Em um de seus textos comentou:
“O saxofone possui qualidades expressivas incomparáveis; a perfeição e beleza de seu som – quando tocado por um interprete talentoso – são tantas que ele pode, em movimentos lentos, dar vida como os melhores cantores. [...] Em alguns anos, quando o uso do saxofone se tornar uma questão de conduta entre intérpretes, os compositores serão capazes de produzir, graças a esse instrumento admirável, efeitos ainda não pensados até agora”
Ainda sobre o saxofone, Berlioz comenta:
“Para mim, seu principal mérito, é a beleza variada de seu timbre, às vezes grave, às vezes calmo, às vezes apaixonado, sonhador ou melancólico, ou vago como o eco enfraquecido de um eco, como os lamentos indistintos da brisa no bosque e, melhor ainda, como as vibrações misteriosas de um sino, algum tempo depois de ter sido tocado, nenhum outro instrumento musical existente que eu conheça possui esta curiosa sonoridade situada no limite do silêncio”
Uma resolução ministerial de 19 de agosto de 1845 impôs dois saxofones (barítono e alto, em lugar dos fagotes e oboés) nas bandas de música dos regimentos de infantaria. A revolução de 1848 suspendeu este decreto por seis anos. O decreto imperial de 16 de agosto de 1854, que fixou a reorganização das bandas de música dos regimentos, ordenou a incorporação de oito saxofones: dois barítonos ou baixos, dois tenores, dois altos e dois sopranos.
Neste ponto, gostaria de abrir um parênteses, pois às vezes gera um pouco de dúvida quando falamos em BANDA: O que é uma banda?
Na nossa concepção brasileira, algumas pessoas imaginam como banda (e eu, há alguns anos atrás pensava assim também), aqueles grupos que tocam no coreto. Bandas de coreto, “furiosinhas”, que tocam marchas, dobrados, etc. Mas não é bem assim.
As bandas mencionadas aqui são Bandas Sinfônicas, que são grupos de sopros, que se assemelham às Orquestras Sinfônicas. Vou transmitir aqui um artigo sobre bandas do maestro Roberto Farias:
“A ideia de banda sinfônica esteve no passado intimamente ligada ao trabalho da orquestra sinfônica. No final do século 19 e início do século 20, esse numeroso organismo instrumental de sopros e percussão elevava a já tradicional banda de música ao “status” de uma orquestra sinfônica, principalmente no que se referia ao repertório. Os arranjos e transcrições de aberturas de óperas, operetas, movimentos de sinfonias, poemas sinfônicos e as célebres valsas vienenses constituíram-se ingredientes responsáveis pela popularização da música sinfônica, quando, de uma maneira mais ágil, promoviam o acesso do grande público à chamada música de concerto, através de apresentações em parques e outros logradouros, fora das ostentações dos grandes teatros da época. Por outro lado, a excelência de muitos desses organismos trazia a banda à cena principal nas grandes salas de concerto, despertando assim o interesse de muitos compositores para uma nova possibilidade de expressão musical que surgia, trazendo consigo uma flexibilidade que até então a já consolidada orquestra sinfônica não permitia.
Uma vez inspiradas nas grandes orquestras e por força do repertório (baseado unicamente em transcrições), as primeiras bandas sinfônicas eram bem maiores que os conjuntos modernos, já que partiam do princípio da substituição dos naipes de instrumentos de cordas por instrumentos de sopro.”
OUÇAM ESTES EXEMPLOS DE BANDAS:
https://www.youtube.com/watch?v=eg2lgQtnXR4&feature=youtu.be
https://www.youtube.com/watch?v=1HqFKXWmXp0&feature=youtu.be
Além disso, as primeiras composições para o instrumento são estritamente eruditas. Ouças estes exemplos:
https://www.youtube.com/watch?v=Shsg_wL6viQ&feature=youtu.be
Este áudio é de uma obra chamada “PREMIER QUATOUR” para quarteto de saxofones, composta no XIX por J.B. Singelée (1812-1876). Amigo de longa data de Adolphe Sax, (eles se conheceram como estudantes da Escola Real de Música), ele incentivou Sax para desenvolver os quatro principais membros da família do saxofone, e compôs esta obra em 1857.
https://www.youtube.com/watch?v=ehod1bNRkxg&feature=youtu.be
Este é de uma obra chamada “Fantaisie sur un thème original.” também composta no final do século XIX por Jules Demersseman(1833-1866)
Como vimos, Adolphe Sax imaginava um instrumento que se assemelhasse às cordas... e conhecendo que conceito de banda no século XIX já era pensando em um repertório sinfônico, portanto podemos concluir que Sax imaginou sim sua invenção como um instrumento clássico/erudito (ou para música de concerto, como quiserem denominar), e, além do mais, o jazz só iria nascer do outro lado do Atlântico (Estados Unidos) 50 anos depois, com o Ragtime...
Só para constar: nem todos os textos são meus: são extraídos de artigos, monografias, teses, livros. Depois passo a bibliografia. Assim que tiver oportunidade, continuarei essa linha de raciocínio... quero falar ainda sobre Ravel antes do saxofone atravessar o Atlântico e chegar aos EUA... Perdoem o longo texto! Tenham paciência! Acho que vale a pena.
CONTINUANDO...
Voltemos no tempo...mais precisamente em junho de 1874. Modest Mussorgsky compõe uma obra para piano denominada “QUADROS DE UMA EXPOSIÇÃO”. A história dessa obra é a seguinte: Viktor Hartmann, arquiteto e pintor, grande amigo de Mussorgsky, havia falecido recentemente (1873) aos 39 anos de idade. Em março de 1874, estava acontecendo uma exposição de seus quadros em uma galeria de São Petersburgo. Após visitá-la, o compositor resolveu prestar uma homenagem ao amigo. Escolheu dez dentre os quadros expostos e compôs uma música para cada um deles.
O 4º Movimento, se chama “O VELHO CASTELO”. Mussorgsky escreve o tema do solo deste movimento imaginando a canção de um trovador medieval.
Avancemos no tempo, mais precisamente em 1922. Maurice Ravel(1875-1937), compositor francês, recebe a encomenda do maestro russo Sergei Koussevitzky para arranjar “QUADROS DE UMA EXPOSIÇÃO” para grande orquestra, um trabalho quase que de recomposição da obra. Sabendo que Mussorgsky imaginou o tema do 4º movimento como o canto de um trovador medieval, Ravel, geniosamente coloca o saxofone fazendo este tema em sua orquestração:
Entre julho e outubro de 1928, Ravel compõe “BOLERO”, obra a qual ele adiciona dois saxofones na orquestração:
https://www.youtube.com/watch?v=I9CMPOz1SaQ
Então irmãos. ..acho que com essa longa narrativa, desmistificamos as dúvidas quanto qual teria sido a ideia de Sax ao criar o nosso instrumento. ...
A própria história prova que Adolphe Sax imaginou seu instrumento para a música de concerto. ...
Mesmo porque na época o ragtime (que originou o jazz) ainda nem tinha surgido, ou seja, sem "achismo", percebemos claramente em que contexto o criador do saxofone imaginou a sua mais importante invenção.